O que falta para ser Nº1?

O que falta para ser Nº1?

No últimos anos no circuito ATP, têm sido muitos os jogadores que se têm destacado como “o futuro” da modalidade, mas poucos têm estado à altura desse título

Por Admin

No últimos anos no circuito ATP, têm sido muitos os jogadores que se têm destacado como “o futuro” da modalidade, mas poucos têm estado à altura desse título. Alcaraz parece ser aquele que pode dominar nos próximos anos, mas ainda é cedo para esse tipo de previsões. E hoje não é sobre o espanhol que vamos falar. Vamos falar sim daqueles que já foram cotados como futuros número 1, mas nunca o foram. Vamos também tentar perceber quais as razões que podem ter impedido que isso acontecesse.

Como referi no texto dos Big Three, foram muitos anos em que três jogadores dominaram o circuito, pela sua qualidade e capacidade de reinventar o seu ténis, mesmo quando novas promessas ameaçavam o seu reinado. Mas como é que em 18 anos de domínio, nunca ninguém foi capaz de atingir o nível de Roger Federer, Rafael Nadal ou Novak Djokovic? Pelo menos de forma consistente.

Andy Murray, como já falámos, foi o único a interromper a hegemonia destes três campeões, mas para este texto a sua relevância é pouco, tendo em conta que o tenista britânico tem sensivelmente a mesma idade que Federer, Nadal e Djokovic. Aqui queremos falar dos que surgiram depois, de uma nova geração que nunca foi capaz de se afirmar como superior aos Big Three.

E para falar de nomes que prometiam e nunca chegaram onde se esperava, podemos falar de Grigor Dimitrov, apelidado por muitos de “Baby Federer” pelo seu jogo extremamente semelhante a Roger Federer nos movimentos técnicos. Podemos falar de David Goffin, ou mesmo de Kei Nishikori. Estes três são apenas alguns exemplos de tenistas que aparentavam estar à altura de conseguir grandes feitos, mas quando chegava a hora H, vacilavam.

Mas é então que surgem nomes como Stefanos Tsitsipas, Borna Coric, Dominic Thiem, Daniil Medvedev e Alexander Zverev. Entre todos eles, Zverev e Thiem recebiam as melhores criticas e as casas de apostas pareciam estar do seu lado para que chegassem ao topo do ranking, enquanto Tsitsipas vinha logo atrás mas com menor favoritismo. Coric ficou arredado desde cedo devido às inúmeras lesões e irregularidade das suas exibições, mas os restantes pareciam estar prontos para assumir a Next Gen como a geração do presente e não do futuro.

Contudo, não foi bem assim. Thiem e Zverev ganhavam encontros importantes, mas de formas esporádica e não suficiente para se manterem na luta pelo número um do mundo. Acima de tudo, quando chegava os momentos em que a pressão era mais intensa, havia sempre algo que os fazia quebrar. Fosse em encontros contra os Big Three, ou fases finais de torneios do Grand Slam – geralmente contra os elementos do trio maravilha. 

Stefanos Tsitsipas dava espetáculo e apresentava um bom ténis, mas tinha lacunas que muitas vezes eram exploradas ao limite e parecia não ter soluções suficientes no seu jogo para contrariar isso. Mentalmente também revelava algumas fragilidades e incapacidade de se manter em encontros que exigiam um elevado plano mental.

Enquanto tudo isso se passava, Daniil Medvedev foi subindo discretamente no ranking mundial e batendo os melhores do mundo. Com um estilo de jogo fora do comum e uma técnica pouco convencional, o tenista russo não era visto como um verdadeiro candidato a envergar por grandes palcos, mas foi mostrando uma evolução notória nos últimos anos, sendo o primeiro, depois de Andy Murray, a ocupar o topo da hierarquia mundial. Subitamente era o jogador em melhor forma do circuito e não demorou muito entre começar uma série vitoriosa e vencer o seu primeiro Grand Slam -  Open dos Estados Unidos em 2021.

Mas então, qual a diferença de Medvedev para Tsitsipas, Thiem e Zverev? A força das pancadas? A qualidade técnica? A diversidade técnica? Não. A resposta é: força mental. Medvedev nunca pareceu incomodar-se por quem o público torcia ou por quem estava do outro lado da rede. Vacilou em alguns momentos importantes, mas assim como parecia ter a mão a tremer, conseguia meter um às que lhe salvava o jogo. Acima de tudo não parecia importar quem estava do outro lado da rede, ou o momento do jogo. O russo praticava sempre o mesmo ténis simples, mas eficaz. 

Diria até que foi apenas após ser número um do mundo que começámos a ver certas atitudes e comportamentos de Medvedev que não tínhamos visto até então. Ou pelo menos na dimensão que aconteceram quando este estava no topo do ranking.

Em suma, a grande diferença de Medvedev para todos os outros foi a sua capacidade de entrar num plano mental que nem Thiem, Zverev ou Tsitsipas conseguiram. O seu ténis era categorizado por muitos como “demasiado simples” e os seus rivais, em teoria, apresentavam mais soluções. Mas qual a utilidade de tantas soluções quando isso não é aproveitado nos momentos mais importantes?

No fim do dia - e provavelmente todo o top 10 mundial na atualidade -apresenta sensivelmente os mesmos recursos técnicos e táticos, mas o plano mental em que estão diferem e alguns daqueles que prometiam muito, nunca chegaram ao seu potencial pleno em termos de ranking por não conseguirem acompanhar o nível técnico e tático com uma mentalidade a condizer.

E eu sei o que estão a pensar. Mas o Alcaraz parece ter um jogo extremamente completo e já mostrou ter muita maturidade e força mental... É verdade, e podem ler a minha opinião sobre o menino prodígio aqui.